
Trabalhar no Exterior: Diferenças entre TI nos EUA e Europa
O nosso blog está repleto de informações valiosas para todos os profissionais de TI brasileiros que desejam trabalhar no exterior, basta voltar aos últimos artigos. Mas, cada um desses mercados – Estados Unidos e Europa – apresentam suas próprias particularidades, desafios e oportunidades.
E para ajudar a desvendar essas diferenças, entrevistamos dois profissionais de tecnologia com muita experiência tanto no mercado europeu quanto no americano. Suas percepções e vivências oferecem insights valiosos sobre as habilidades mais valorizadas, a cultura organizacional e o impacto do domínio do inglês em suas trajetórias internacionais.
Conversamos com William Kawai, sócio e líder de projeto na Cloud2gether, e também Product Designer na Toptal e com Ramon Barbosa, que é Back end Developer e trabalha na Ryanair, em Dublin. Fizemos as mesmas perguntas para os dois e com certeza vai ser de muita ajuda para tirar qualquer dúvida que ainda esteja presente, além de dar aquele “empurrãozinho” necessário para dar o primeiro passo e começar uma carreira internacional. Boa leitura!
- Quais foram as principais diferenças que você percebeu na cultura de trabalho entre empresas americanas e europeias?
William: Objetividade em reuniões e foco na resolução do problema, o que resultava em reuniões mais rápidas e mais objetivas, com apenas a participação das pessoas que são chave no processo de resolução falando.
Ramon: Empresas americanas têm foco em resultados mais rápidos, com prazos geralmente mais curtos e maior pressão por resultados, mesmo para recém contratados. As empresas europeias geralmente têm um estilo de cobrança mais flexível, com tempo para adaptação e cobrança a longo prazo. - Como você descreveria o equilíbrio entre vida profissional e pessoal em cada um desses mercados?
William:
Nas minhas experiências, os horários de trabalho eram bem respeitados. As pessoas ficavam o máximo de tempo possível para resolver as coisas dentro do expediente. Isso não significava menor produtividade.
Ramon:
Nas empresas americanas em que trabalhei, o ritmo era mais intenso, o que gerava pressão no fim dos prazos de entrega, que dificilmente eram renegociados. Era comum haver trabalho extra nesses períodos. Já nas empresas europeias, é comum ver prazos sendo renegociados quando estão muito próximos, e dificilmente presenciei pessoas fazendo horas extras.
- Você sentiu diferenças nas políticas de gestão de equipes? Como os líderes e gestores americanos e europeus lidam com comunicação e feedback?
William: Tive uma dificuldade no início com a língua, e o feedback aplicado foi bem tranquilo pela minha “responsável” nesta empresa. No meu caso, me contrataram já sabendo que meu inglês não estava perfeito para uma reunião de alto nível, mas pra minha gestora, isso não foi um problema pois ela sabia que com a prática e estudo isso poderia ser melhorado logo. Então o feedback foi tranquilo nesse sentido.
Ramon: Assim como a cobrança, o feedback de empresas americanas costuma ser mais rápido, a gestão geralmente era próxima para acompanhar o desenvolvimento de tarefas e entender melhor o que estava para ser entregue. Em empresas europeias o feedback não é muito imediato e evitam ter cobranças públicas para uma única pessoa. Geralmente a responsabilidade sobre entregas e atrasos é mais compartilhada. - Quais diferenças você notou nos processos seletivos das empresas americanas e europeias?
William: Na minha área de UX, percebi que havia uma preocupação muito maior em mostrar skills técnicas, do trabalho hands-on. Então apresentar projetos, trabalhos em andamento, mostrar o processo, foram questões muito focadas nessas entrevistas.
Ramon: Geralmente as empresas americanas deram resultados mais rápido. Em relação ao processo em si, ambas geralmente fazem entrevistas seguindo etapas adequação a vaga, comportamentais e técnicas (leet code e arquitetura). - Em termos de requisitos de habilidades técnicas e comportamentais, como as empresas americanas e europeias se diferem?
William: Em questões comportamentais não vi diferença. Mas sim na parte técnica como mencionei anteriormente.
Ramon: As empresas americanas (fora big techs) aparentemente preferem alguém que já trabalha de maneira parecida, como stack e produto, e assim ter uma menor curva de aprendizagem para o recém-chegado. Já as europeias focam em entender se as habilidades do candidato podem ser aproveitadas, mesmo que sem experiência tão parecida.
- A questão do idioma (inglês ou outras línguas) impactou de maneiras diferentes sua experiência ao buscar trabalho na Europa e nos EUA?
William: Observei que não foi um problema exatamente. Apesar do meu inglês não ser um nível perfeito de comunicação e ter começado muito recente a falar inglês para trabalhar, eles aceitaram bem e compreendiam minhas falas. Estudei o inglês mais direcionado da minha área, vocabulário usado, nomes, isso me ajudou muito.
Ramon: A partir de um nível de inglês conversacional, não há diferenças entre os dois mercados. Ambos buscam por pessoas que possam se comunicar adequadamente, entender demandas e explicar problemas. - Houve diferenças significativas nas tecnologias, frameworks ou metodologias de trabalho usados nos EUA em comparação com a Europa?
William: Não, inclusive percebi também que em algumas empresas sofrem dos mesmos problemas do Brasil. Que se dizem aplicar uma metodologia, quando na verdade, não fazem.
Ramon: Não. Ambos sempre trabalharam com scrum e mesmos stacks tecnológicos. - Em qual mercado você sentiu que havia maior foco no desenvolvimento de habilidades técnicas versus habilidades interpessoais (soft skills)?
William: Técnico, mercado estrangeiro. Interpessoais, no Brasil. Isso não quer dizer que as habilidades interpessoais não importam para eles. Em um dos casos, como eu já havia trabalhado como gerente e gestor de equipe no Brasil, eles valorizaram e aproveitaram bem dessa skill também no trabalho lá fora.
Ramon: O mercado americano tem foco maior em habilidades técnicas, focando na entrega de demandas.
Complete a leitura: Como se preparar para uma carreira internacional em TI
- Como você compararia a abordagem de inovação e agilidade entre os dois mercados?
William: Acredito que pode variar de empresa para empresa. Atuei com empresas estrangeiras que também tinham métodos muito ultrapassados. Porém, funcionavam, o que era o grande foco deles lá. Não era inovação somente pela inovação (como já vi acontecer em algumas empresas no Brasil), mas sim para um fim que apresentasse resultados. Se não, nem havia necessidade de inovar.
Ramon: Empresas americanas tem um ritmo mais rápido, portanto acabam testando e falhando mais rapidamente. - Como você avalia o foco em diversidade e inclusão nos ambientes de trabalho americano e europeu?
William: A diversidade era visível. Realmente em diferentes empresas e diferentes áreas, você percebia que havia uma equipe multicultural e bem distinta e de diferentes países.
Ramon: Ambos os mercados buscam por pessoas com habilidades para suas tarefas, sem julgamento de aspectos pessoais. Sempre pude trabalhar com pessoas de várias origens, mas nunca verifiquei a fundo políticas inclusivas. - Você sentiu diferenças no tratamento dado a profissionais internacionais, como brasileiros, em cada mercado?
William: Não observei nenhuma diferença, porém, era difícil encontrar brasileiros nessas empresas americanas. As pessoas até perguntam bastante pra saber sobre o País, pois achavam interessante.
Ramon: No mercado americano tinha uma certa cobrança adicional quando trabalhei como freelancer, já que eles esperavam um retorno mais rápido do custo de contratação. Lá, houve também uma empresa com uma política de acesso e desenvolvimento remoto somente através de máquinas virtuais para os funcionários terceirizados.
- Como se comparam os pacotes salariais e de benefícios oferecidos pelas empresas americanas e europeias?
William: Até onde eu fiquei sabendo através de recrutadores internos, as empresas americanas, optam por profissionais no Brasil pelo baixo custo que apresenta. Porém, na conversão de câmbio, um salário em Dólar para o brasileiro, mesmo que com um custo menor para os americanos, ainda vale muito a pena. No fim o brasileiro ainda sai com um salário muito mais alto do que ganharia aqui no Brasil em Real.
Ramon: Trabalhando remoto para empresas americanas apenas recebia meu salário diretamente, sem bônus ou outros benefícios.Nas empresas europeias os salários não são tão altos quanto imagino ser trabalhando diretamente nos EUA, há benefícios quase padrões como seguro saúde e opções por previdência privada. - Na sua experiência, qual mercado oferece melhores condições para crescimento profissional e aumentos salariais?
William: Acredito que isso possa variar bastante de empresa para empresa também. Mas de bate-pronto em salários iniciais, ganhar em Dólar com certeza é mais vantajoso.
Ramon: O mercado americano proporciona melhores condições de crescimento salarial e profissional, visto o ritmo mais rápido onde é possível ter várias experiências em pouco tempo. Nas empresas europeias o crescimento profissional também é incentivado de outras formas como benefícios para aprendizagem e uma possibilidade de discutir mais sobre implementações antes de entregas, mas não tem uma curva de ascensão salarial muito grande. - Você percebeu diferenças na estrutura de hierarquia ou autonomia dada aos desenvolvedores nos dois mercados?
William: Não senti diferenças, acredito que os dois mercados nesse sentido dão oportunidade para você explorar saídas, desde que cumpra com o que foi acordado.
Ramon: Fora o episódio de uma empresa americana específica (como falei antes) sobre acesso por meio de máquina virtual, não vi nenhum outro ponto.
- Como as reuniões e o fluxo de comunicação diferem entre as equipes americanas e europeias?
William: As comunicações são mais objetivas e as reuniões tendem acabar no horário programado, sem extrapolar o tempo definido. Percebi que eles já se organizam para que haja outra sessão de discussão caso não dê tempo de terminar naquela reunião.
Ramon: A comunicação em empresas americanas ocorre sem muitas barreiras, onde pessoas são acionadas conforme a necessidade. As reuniões eram mais curtas por haver um fluxo de comunicação durante todo o expediente. - Em qual mercado você sentiu uma maior pressão por performance ou entrega de resultados rápidos?
William: Em questão de pressão, acredito que os dois mercados são parecidos. Pode variar de acordo com a empresa, mas ambas se preocupam com o resultado e o que é acordado para entrega.
Ramon: Mercado americano. - Quais foram os maiores desafios que você enfrentou ao trabalhar para empresas americanas e europeias?
William: Quebrar a barreira de achar que eu não estava pronto ou que sabia menos nas empresas que outros profissionais. Com o tempo, vi que assim como eu, eles também tinham dificuldades em alguns assuntos mais técnicos ou de ferramenta, e outros assuntos que eu consegui agregar também.
Ramon: Somente me senti confortável com a comunicação em Inglês, onde era difícil expressar o que eu precisava inicialmente. - Que tipo de aprendizado de um mercado você levou para aplicar no outro?
William: A objetividade, a visão multicultural de que brasileiros também têm, e a capacidade/ conhecimento técnico para se destacar.
Ramon: Agilidade e foco no resultado das empresas americanas foi uma boa experiência que apliquei ao trabalhar nas empresas européias. - Se pudesse destacar apenas uma diferença fundamental entre os dois mercados, qual seria?
William: Objetividade e foco no resultado, que hoje eu busco agregar para o meu dia a dia profissional.
Ramon: Cobrança e foco maior em entregas das empresas americanas. - Se você pudesse dar um conselho para quem deseja trabalhar no mercado americano ou europeu, qual seria a principal recomendação para cada um?
William: O mercado estrangeiro pode parecer assustador quando pensamos nele, pq criamos preconceitos de achar que as coisas de fora são melhores ou mais difíceis e concorridas, quando na verdade, no Brasil, temos sim mão de obra qualificada, boas universidades e cursos e consequentemente ótimos profissionais que se destacam. A diferença de cultura é algo muito forte no brasileiro, positivamente falando, já que sempre damos um jeito para resolver as coisas, e isso é valorizado pelos estrangeiros. Então meu conselho seria não se deixar intimidar por esses preconceitos que existem, e se jogar de cabeça. Uma hora você vai ver que seu nível não está abaixo do mercado estrageiro e que a barreira da língua é algo fácil de ser resolvido.
Ramon: As empresas americanas irão ser uma boa experiência de crescimento rápido, porém há pontos como maior rotatividade e exaustão dos funcionários. Foque na comunicação para conseguir expor o que está fazendo e busque equilíbrio com a vida pessoal. As empresas européias, fornecem um ambiente mais sustentável a longo prazo, foque em entender detalhes da estrutura de onde trabalha e seja colaborativo.
Se você está buscando uma carreira internacional, compreender essas nuances pode ser a chave para tomar decisões mais estratégicas e alinhadas aos seus objetivos. Esperamos que essa entrevista tenha ajudado e que o próximo passo seja pensar no seu novo trabalho fora do Brasil.
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